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quinta-feira, 17 de março de 2011

Vovô!

Meu avô foi uma das pessoas mais fascinantes que conheci! Um paraibano alegre, advogado respeitado, profissional dedicado, que virava criança para brincar com os netos! Ah, como essas coisas deixam saudade...
Lembrando do vovô, escrevi um conto para um concurso, e vou postá-lo aqui para vocês. Escrevi como conto, mas é verdade verdadeira!

POSSO ENTRAR NO PARAÍSO?

“Posso entrar no paraíso?”
Essa era a frase que eu ouvia nos fins de tarde, na casa dos meus avós. Voltando do trabalho, meu avô não usava a chave da casa, tocava a campainha. Minha avó, que naquele horário já parecia estar numa alegre expectativa, corria para atender a porta. Mal ela abria, o vovô sorria para ela perguntando:
- Posso entrar no paraíso?
E a vovó, escancarando a porta:
- Pode entrar!
E o vovô dizia para ela:
- Mas no paraíso tem “superdeusa”!
- Não tem problema -respondia a vovó entre sorrisos- a superdeusa deixa você entrar!
E assim o vovô entrava e a casa se enchia de um carinho contagiante entre os dois. Era uma paz tão perfeita que eu fazia o possível para não fazer barulho, como se ficando quietinha eu conseguisse parar o tempo, permanecendo criança e perfeitamente segura naquele paraíso.
Vovô e vovó não se cansavam daquela terna brincadeira que parecia colorir o fim de tarde, mesmo depois do dia cansativo de trabalho, do trânsito e das preocupações diárias.
Eu admirava o relacionamento dos meus avós. Vovô era um paraibano de fortes convicções. Muito jovem, ele se apaixonou pela vovó, que com 18 anos já era viúva e mãe de três filhas. Vovô era filho de uma família rica, e quando anunciou o casamento, foi deserdado pelo pai, este achava inaceitável que o patrimônio da família fosse repartido com as três filhas da vovó.
O fato não abalou o amor dos dois. Casaram-se, tiveram mais dois filhos e venceram as dificuldades financeiras com trabalho honesto. Advogado, conhecido pela reputação irretocável, vovô estabeleceu-se no Rio de Janeiro.
Ele era definitivamente um homem feliz. Eu o ouvia cantar canções nordestinas, que ele dizia ter aprendido na infância, às vezes ele me contava sobre a seca no sertão e sobre sua infância. Aquelas histórias me ensinavam valores preciosos!
Pela manhã, também havia um “ritual” entre ele e a vovó. Vovô ia para o trabalho de metrô, a vovó se sentava ao lado do telefone lendo o jornal ou fazendo palavras cruzadas até que o vovô telefonasse, que era a primeira coisa que ele fazia ao chegar ao escritório. Ela perguntava:
- Já chegou?
E ele respondia sempre:
- Não, ainda estou “metropolitando”...
Essa frase fazia a vovó gargalhar. Eu achava estranho que a vovó risse sempre da mesma coisa. Anos mais tarde eu entendi que não era a frase repetida que a fazia rir, mas era ouvir a voz do vovô que a fazia feliz!
Mas todo aquele colorido tornou-se repentinamente preto e branco. Meu tio, o caçula dos meus avós, teve uma morte trágica em um assalto no Rio de Janeiro. Vovô nunca mais foi o mesmo...
Não mais cantou; entrava em casa quieto e ia para o quarto, chorava como criança. Nestes dias mais tristes eu tentava distraí-lo contando histórias e falando sobre outros assuntos. Ele ouvia, mas o brilho dos seus lindos olhos verdes se fora.
Não muito tempo depois, a tristeza acabou por fazer seu corpo adoecer, a doença o devastou e ele se foi, numa véspera de Natal, para tristeza e saudade de seus filhos e netos.
Vovó não conseguiu superar a ausência dele. Poucas vezes a vi chorar, mas em seus olhos havia uma dor profunda, quase palpável. Então definhou, desistiu de viver... preferiu encontrar-se com o vovô.
E eu sempre imagino o vovô chegando ao céu e perguntando para Deus:
- Posso entrar no Paraíso?
E Deus escancarando a porta diria:
- Pode entrar!
Vovô provavelmente diria para Deus:
- Mas no paraíso tem “superdeus”!
Ao que Deus responderia, sorrindo:
- Não tem problema, Eu deixo você entrar!

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