Lembrando do vovô, escrevi um conto para um concurso, e vou postá-lo aqui para vocês. Escrevi como conto, mas é verdade verdadeira!
POSSO ENTRAR NO PARAÍSO?
“Posso entrar no paraíso?”
Essa era a frase que eu ouvia nos fins de tarde, na casa dos meus avós. Voltando do trabalho, meu avô não usava a chave da casa, tocava a campainha. Minha avó, que naquele horário já parecia estar numa alegre expectativa, corria para atender a porta. Mal ela abria, o vovô sorria para ela perguntando:
- Posso entrar no paraíso?
E a vovó, escancarando a porta:
- Pode entrar!
E o vovô dizia para ela:
- Mas no paraíso tem “superdeusa”!
- Não tem problema -respondia a vovó entre sorrisos- a superdeusa deixa você entrar!
E assim o vovô entrava e a casa se enchia de um carinho contagiante entre os dois. Era uma paz tão perfeita que eu fazia o possível para não fazer barulho, como se ficando quietinha eu conseguisse parar o tempo, permanecendo criança e perfeitamente segura naquele paraíso.
Vovô e vovó não se cansavam daquela terna brincadeira que parecia colorir o fim de tarde, mesmo depois do dia cansativo de trabalho, do trânsito e das preocupações diárias.
Eu admirava o relacionamento dos meus avós. Vovô era um paraibano de fortes convicções. Muito jovem, ele se apaixonou pela vovó, que com 18 anos já era viúva e mãe de três filhas. Vovô era filho de uma família rica, e quando anunciou o casamento, foi deserdado pelo pai, este achava inaceitável que o patrimônio da família fosse repartido com as três filhas da vovó.
O fato não abalou o amor dos dois. Casaram-se, tiveram mais dois filhos e venceram as dificuldades financeiras com trabalho honesto. Advogado, conhecido pela reputação irretocável, vovô estabeleceu-se no Rio de Janeiro.
Ele era definitivamente um homem feliz. Eu o ouvia cantar canções nordestinas, que ele dizia ter aprendido na infância, às vezes ele me contava sobre a seca no sertão e sobre sua infância. Aquelas histórias me ensinavam valores preciosos!
Pela manhã, também havia um “ritual” entre ele e a vovó. Vovô ia para o trabalho de metrô, a vovó se sentava ao lado do telefone lendo o jornal ou fazendo palavras cruzadas até que o vovô telefonasse, que era a primeira coisa que ele fazia ao chegar ao escritório. Ela perguntava:
- Já chegou?
E ele respondia sempre:
- Não, ainda estou “metropolitando”...
Essa frase fazia a vovó gargalhar. Eu achava estranho que a vovó risse sempre da mesma coisa. Anos mais tarde eu entendi que não era a frase repetida que a fazia rir, mas era ouvir a voz do vovô que a fazia feliz!
Mas todo aquele colorido tornou-se repentinamente preto e branco. Meu tio, o caçula dos meus avós, teve uma morte trágica em um assalto no Rio de Janeiro. Vovô nunca mais foi o mesmo...
Não mais cantou; entrava em casa quieto e ia para o quarto, chorava como criança. Nestes dias mais tristes eu tentava distraí-lo contando histórias e falando sobre outros assuntos. Ele ouvia, mas o brilho dos seus lindos olhos verdes se fora.
Não muito tempo depois, a tristeza acabou por fazer seu corpo adoecer, a doença o devastou e ele se foi, numa véspera de Natal, para tristeza e saudade de seus filhos e netos.
Vovó não conseguiu superar a ausência dele. Poucas vezes a vi chorar, mas em seus olhos havia uma dor profunda, quase palpável. Então definhou, desistiu de viver... preferiu encontrar-se com o vovô.
E eu sempre imagino o vovô chegando ao céu e perguntando para Deus:
- Posso entrar no Paraíso?
E Deus escancarando a porta diria:
- Pode entrar!
Vovô provavelmente diria para Deus:
- Mas no paraíso tem “superdeus”!
Ao que Deus responderia, sorrindo:
- Não tem problema, Eu deixo você entrar!
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