Marcadores

Contos (4) Devocionais (2) Lembranças (1) Pensando (12) Textos de amigos (2)
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Não te quero mais...

 Lembro de vê-la pela primeira vez. Acho que a iluminação ajudou, mas achei-a linda! Ela sobressaía em meio às outras. Eu passava pelo mesmo lugar quase todos os dias só para vê-la. Vendo-a, pensava em como seria se ela fosse minha... Imaginava lugares onde podíamos ir juntos, pensava no que diriam meus amigos ao ver-me tão bem acompanhado! Além de linda, ela era elegante, discreta, e parecia uma companhia adequada para qualquer ocasião.
Eu queria que ela estivesse na minha casa... debaixo do meu teto... como se fosse minha propriedade, sempre ao alcance da minha mão.
Não medi esforços para que isso acontecesse. Flertei com ela por algum tempo, até que nossa união se consumou. Finalmente ela era minha! Tão linda! E assim saíamos juntos para todos os lugares. Muitas vezes ela me acompanhou ao trabalho, ao cinema, ao shopping, aos encontros com amigos. Acostumei tanto a tê-la comigo que era difícil pensar em estar sem ela. Quando saíamos juntos, muitos nos elogiavam, e eu sentia orgulho pelo bom gosto na escolha de minha companheira.
Mas o tempo foi passando... E eu não devo ter cuidado muito bem dela. Ela foi mostrando alguns sinais de cansaço, foi perdendo o brilho. Já não era tão linda...
E eu, comecei a pensar em substitui-la. Eu queria de novo uma companheira linda, que não mostrasse sinais do tempo, que fosse elegante e adequada, e imaginei que por mais que eu me esforçasse, seria muito mais trabalhoso tentar restituir o brilho da minha companheira. E comecei a olhar com atenção para outras, buscando aquela beleza que havia me encantado pela primeira vez, mas que eu não via mais na minha parceira. Já não era tão agradável sair com ela, especialmente quando eu a comparava com outras. Eu já não sentia orgulho de tê-la escolhido...
Desisti dela. Uma noite, sem palavras, olhei-a demoradamente no nosso quarto... E pensei no meu íntimo: "não te quero mais". E comecei a desejar e buscar outra companheira.
Essa história tem dois lados: o bom e o ruim. O bom é que se trata de uma ficção. Eu narrei uma história que conta como eu comprei uma linda bota de inverno, e do quanto eu gostava dela, até que percebi que ela já estava tão usada que não daria mais para consertá-la, e eu decidi que precisaria comprar outra.
O lado ruim é que a história de uma relação com um objeto de consumo, que tem tempo determinado, ou "prazo de validade" (afinal, o objeto só é útil enquanto serve ao propósito que temos para ele), pode ser a história de um relacionamento entre duas pessoas! Quantas vezes pessoas são descartadas como se fossem objetos? Quantos cônjuges são descartados quando a beleza já não é tão evidente, quando aparece uma opção mais elegante, bela e "adequada" ao estilo de vida?
Objetos envelhecem. Muitos se tornam inúteis...
Pessoas tem que ser vistas por outra perspectiva. Elas amadurecem. E o amadurecimento de uma relação pode ser delicioso, basta querer!

"A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova". (Fernando Pessoa)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe e filha

Hora do almoço. Estavam só as duas, mãe e filha. E sem nenhuma introdução, a filha começa a conversa:
- Mãe! Todas as minhas amigas já perguntaram isso para a mãe delas e eu quero que você responda para mim também.
Sentindo o olharzinho meio sem jeito da filha adolescente, a mãe responde com calma.
- Claro filha! Mamãe é antes de tudo sua amiga. O que você quer peguntar?
- Você ia ficar brava comigo se um dia eu dissesse que dei um beijo em algum garoto?
A mãe engoliu em seco...
- Filha... - com a maior naturalidade possível - depende muito da situação. Se você me dissesse que beijou um garoto da escola porque ele é bonitinho, porque todo mundo beija, ou por uma razão assim meio "nada a ver", eu ia achar que não foi uma atitude legal. Mas se você contasse que beijou alguém de quem você já gosta, com quem você tem um relacionamento, daí é meio diferente...
A filha pareceu estimulada pela resposta da mãe.
- Mãe, mas e se não fosse assim, um beijo, mas fosse "tipo assim", só um selinho?
A mãe começa a desconfiar daquela conversa.
- Filha, o que houve na escola hoje?
- Nada mãe!
- Você beijou alguém na escola?
- NÃO mãe!!!!
- Então você viu alguém beijar alguém?
- Também não, mããããããe!
- Filha, e porque mesmo esse assunto agora, no meio do almoço?
- Ah... porque eu queria saber se caso acontecesse comigo, se você ia ficar brava. Assim, se fosse um selinho, e se fosse num menino legal, assim, que gosta de mim, e eu dele...
A mãe pensou antes de responder.
- Filha, você é tão novinha. Acho meio cedo! Mas se acontecer, eu quero que você me conte, porque eu quero que você saiba que pode conversar comigo sobre qualquer coisa, tá bom?
- Tá bom mãe! - e ela acrescentou um suspiro de alívio.
A mãe ficou olhando... e a filha disparou:
- Mãe, e se eu desse um selinho no Joãozinho? Você sabe que ele gosta de mim... Eu gosto dele...
- Filha, você beijou o Joãozinho?
Meio envergonhada, a menina abaixou a cabeça e falou mais baixinho:
- Foi só um selinho, mãe... Uma brincadeira! Nem foi bem um beijo de verdade...
E a mãe, querendo fazer cara de seriedade, olhou nos olhos da sua menininha, que estava com as faces ruborizadas. A pequena baixou os olhos, e a mãe só conseguiu dizer entre lágrimas:
- Meu bebê já está uma mocinha!
E ali nasceu um elo de cumplicidade entre mãe e filha que jamais poderia ser quebrado.

sábado, 26 de março de 2011

Ela cansou.
Não é que não o amasse, ela simplesmente não podia mais.
Durante anos cuidou dele, com dedicação e carinho.
Lutou contra dificuldades financeiras, enfrentou a doença com determinação.
Até que as coisas se tornaram além do que ela podia suportar.
Já não era tão jovem... ela cansou.
No fundo, no secreto de sua alma, pensava que se Deus o levasse seria melhor para os dois.
Por outro lado, temia não conseguir continuar sozinha, depois de tantos anos em função dele.
Há anos eram assim, só os dois, e todos acreditando que ela daria conta.
Mas ela cansou... e ele percebendo o cansaço dela, desistiu.
Afinal, era o vigor dela que o mantinha vivo.
Assim, aos pouquinhos seu corpo foi parando de funcionar.
Como que para dar tempo para ela se acostumar.
Ele se foi... e ela nem conseguiu chorar...
Estava muito cansada.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Vovô!

Meu avô foi uma das pessoas mais fascinantes que conheci! Um paraibano alegre, advogado respeitado, profissional dedicado, que virava criança para brincar com os netos! Ah, como essas coisas deixam saudade...
Lembrando do vovô, escrevi um conto para um concurso, e vou postá-lo aqui para vocês. Escrevi como conto, mas é verdade verdadeira!

POSSO ENTRAR NO PARAÍSO?

“Posso entrar no paraíso?”
Essa era a frase que eu ouvia nos fins de tarde, na casa dos meus avós. Voltando do trabalho, meu avô não usava a chave da casa, tocava a campainha. Minha avó, que naquele horário já parecia estar numa alegre expectativa, corria para atender a porta. Mal ela abria, o vovô sorria para ela perguntando:
- Posso entrar no paraíso?
E a vovó, escancarando a porta:
- Pode entrar!
E o vovô dizia para ela:
- Mas no paraíso tem “superdeusa”!
- Não tem problema -respondia a vovó entre sorrisos- a superdeusa deixa você entrar!
E assim o vovô entrava e a casa se enchia de um carinho contagiante entre os dois. Era uma paz tão perfeita que eu fazia o possível para não fazer barulho, como se ficando quietinha eu conseguisse parar o tempo, permanecendo criança e perfeitamente segura naquele paraíso.
Vovô e vovó não se cansavam daquela terna brincadeira que parecia colorir o fim de tarde, mesmo depois do dia cansativo de trabalho, do trânsito e das preocupações diárias.
Eu admirava o relacionamento dos meus avós. Vovô era um paraibano de fortes convicções. Muito jovem, ele se apaixonou pela vovó, que com 18 anos já era viúva e mãe de três filhas. Vovô era filho de uma família rica, e quando anunciou o casamento, foi deserdado pelo pai, este achava inaceitável que o patrimônio da família fosse repartido com as três filhas da vovó.
O fato não abalou o amor dos dois. Casaram-se, tiveram mais dois filhos e venceram as dificuldades financeiras com trabalho honesto. Advogado, conhecido pela reputação irretocável, vovô estabeleceu-se no Rio de Janeiro.
Ele era definitivamente um homem feliz. Eu o ouvia cantar canções nordestinas, que ele dizia ter aprendido na infância, às vezes ele me contava sobre a seca no sertão e sobre sua infância. Aquelas histórias me ensinavam valores preciosos!
Pela manhã, também havia um “ritual” entre ele e a vovó. Vovô ia para o trabalho de metrô, a vovó se sentava ao lado do telefone lendo o jornal ou fazendo palavras cruzadas até que o vovô telefonasse, que era a primeira coisa que ele fazia ao chegar ao escritório. Ela perguntava:
- Já chegou?
E ele respondia sempre:
- Não, ainda estou “metropolitando”...
Essa frase fazia a vovó gargalhar. Eu achava estranho que a vovó risse sempre da mesma coisa. Anos mais tarde eu entendi que não era a frase repetida que a fazia rir, mas era ouvir a voz do vovô que a fazia feliz!
Mas todo aquele colorido tornou-se repentinamente preto e branco. Meu tio, o caçula dos meus avós, teve uma morte trágica em um assalto no Rio de Janeiro. Vovô nunca mais foi o mesmo...
Não mais cantou; entrava em casa quieto e ia para o quarto, chorava como criança. Nestes dias mais tristes eu tentava distraí-lo contando histórias e falando sobre outros assuntos. Ele ouvia, mas o brilho dos seus lindos olhos verdes se fora.
Não muito tempo depois, a tristeza acabou por fazer seu corpo adoecer, a doença o devastou e ele se foi, numa véspera de Natal, para tristeza e saudade de seus filhos e netos.
Vovó não conseguiu superar a ausência dele. Poucas vezes a vi chorar, mas em seus olhos havia uma dor profunda, quase palpável. Então definhou, desistiu de viver... preferiu encontrar-se com o vovô.
E eu sempre imagino o vovô chegando ao céu e perguntando para Deus:
- Posso entrar no Paraíso?
E Deus escancarando a porta diria:
- Pode entrar!
Vovô provavelmente diria para Deus:
- Mas no paraíso tem “superdeus”!
Ao que Deus responderia, sorrindo:
- Não tem problema, Eu deixo você entrar!