Lembro de vê-la pela primeira vez. Acho que a iluminação ajudou, mas achei-a linda! Ela sobressaía em meio às outras. Eu passava pelo mesmo lugar quase todos os dias só para vê-la. Vendo-a, pensava em como seria se ela fosse minha... Imaginava lugares onde podíamos ir juntos, pensava no que diriam meus amigos ao ver-me tão bem acompanhado! Além de linda, ela era elegante, discreta, e parecia uma companhia adequada para qualquer ocasião.
Eu queria que ela estivesse na minha casa... debaixo do meu teto... como se fosse minha propriedade, sempre ao alcance da minha mão.
Não medi esforços para que isso acontecesse. Flertei com ela por algum tempo, até que nossa união se consumou. Finalmente ela era minha! Tão linda! E assim saíamos juntos para todos os lugares. Muitas vezes ela me acompanhou ao trabalho, ao cinema, ao shopping, aos encontros com amigos. Acostumei tanto a tê-la comigo que era difícil pensar em estar sem ela. Quando saíamos juntos, muitos nos elogiavam, e eu sentia orgulho pelo bom gosto na escolha de minha companheira.
Mas o tempo foi passando... E eu não devo ter cuidado muito bem dela. Ela foi mostrando alguns sinais de cansaço, foi perdendo o brilho. Já não era tão linda...
E eu, comecei a pensar em substitui-la. Eu queria de novo uma companheira linda, que não mostrasse sinais do tempo, que fosse elegante e adequada, e imaginei que por mais que eu me esforçasse, seria muito mais trabalhoso tentar restituir o brilho da minha companheira. E comecei a olhar com atenção para outras, buscando aquela beleza que havia me encantado pela primeira vez, mas que eu não via mais na minha parceira. Já não era tão agradável sair com ela, especialmente quando eu a comparava com outras. Eu já não sentia orgulho de tê-la escolhido...
Desisti dela. Uma noite, sem palavras, olhei-a demoradamente no nosso quarto... E pensei no meu íntimo: "não te quero mais". E comecei a desejar e buscar outra companheira.
Essa história tem dois lados: o bom e o ruim. O bom é que se trata de uma ficção. Eu narrei uma história que conta como eu comprei uma linda bota de inverno, e do quanto eu gostava dela, até que percebi que ela já estava tão usada que não daria mais para consertá-la, e eu decidi que precisaria comprar outra.
O lado ruim é que a história de uma relação com um objeto de consumo, que tem tempo determinado, ou "prazo de validade" (afinal, o objeto só é útil enquanto serve ao propósito que temos para ele), pode ser a história de um relacionamento entre duas pessoas! Quantas vezes pessoas são descartadas como se fossem objetos? Quantos cônjuges são descartados quando a beleza já não é tão evidente, quando aparece uma opção mais elegante, bela e "adequada" ao estilo de vida?
Objetos envelhecem. Muitos se tornam inúteis...
Pessoas tem que ser vistas por outra perspectiva. Elas amadurecem. E o amadurecimento de uma relação pode ser delicioso, basta querer!
"A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova". (Fernando Pessoa)
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